Olhar Global

Impasse na Catalunha

Leia a coluna publicada na edição desta segunda-feira em ZH

Por: Luiz Antônio Araujo
28/12/2015 - 03h43min


A mais recente ofensiva independentista da Catalunha, uma das 17 regiões autônomas da Espanha, ameaça devorar o político que se tornou, há dois anos, seu maior símbolo: o presidente do governo autônomo catalão, Artur Mas. Depois de conquistar maioria nas eleições parlamentares de 27 de setembro, os soberanistas enredarem-se em três meses de tensas negociações, sem conseguir formar um governo capaz de levar adiante a separação do Estado espanhol. Duas siglas simbolizam a divisão: a Junts pel Sí (Juntos pelo Sim ou JxS), de perfil mais conservador, encabeçada por Mas, com 62 deputados, e a Candidatura de Unidad Popular (CUP), que reúne siglas de esquerda, com 10 deputados.

Para reeleger Mas e consagrar a independência, a JxS precisa do apoio de pelo menos dois deputados da CUP. Ontem, a hamletiana dúvida sobre fazer ou não um acordo com Mas levou a coalizão de esquerda a realizar uma assembleia na pequena cidade de Sabadell, distante algumas dezenas de quilômetros de Barcelona. Na imprensa antissoberanista espanhola, o encontro, aberto a qualquer inscrito e com decisões tomadas pelo voto, foi deplorado como uma reedição dos conselhos de trabalhadores da Revolução Russa. Em vez de proferir o veredicto tão temido por Madri, a assembleia de Sabadell terminou em um rigoroso empate: 1.515 foram favoráveis a um governo com Mas, e outros 1.515 rechaçaram a ideia.

Tudo indica que, para garantir a sobrevivência do projeto soberanista, a JxS terá de sacrificar Mas. Desgastado por escândalos de corrupção, o presidente da Generalitat (governo autônomo) está diante de um dilema: ou se afasta como último recurso para atrair a esquerda, ou corre o risco de ver o naufrágio do projeto independentista atribuído a suas ambições pessoais. Não há muito tempo: se não houver governo até 9 de janeiro, haverá novas eleições – a quarta desde 2010.